Semana passada escrevi meu primeiro texto “bloguístico”. Apesar do pouco tempo de estrada, devia estar em um momento inspirado, já que cheguei até mesmo a receber alguns elogios. Talvez inspirado demais, tanto que na pressa em escrever e publicar, acabei pecando em alguns aspectos do texto, o que acabou me rendendo também críticas (construtivas, ainda bem).
Acontece que, preocupado em me manifestar contra a censura estúpida (talvez o único tipo existente), acabei manifestando demais e informando de menos. Um leve e educado “puxão de orelha” do Guz, da equipe do OxenTI e colega de blog, me fez perceber que eu não tinha explicado devidamente sobre o assunto, não dava uma introdução, não esclarecia sobre o desenrolar dos fatos, não citava fontes, não me aprofundava em motivos ou consequências — ou seja, estava me comportando como um novato que não sabe como a internet funciona.
Quem nunca recebeu recebeu, pelo menos uma vez, uma mensagem sobre uma menina com câncer que irá receber doações a cada email repassado por você? Ou um alerta contra um terrível composto químico introduzido secretamente pela indústria? Ou um pedido para aderir a um boicote contra os abusos das companhias telefônicas ou de combustíveis? Em outras palavras: as temíveis .
Antes de sairmos chamando todo mundo de “salsinha” e concluirmos, satisfeitos porém mortificados, que nem todos têm a chance de ser tão iluminados como nós aqui do blog — o que não deixa de ser uma verdade ululante! ;) — vamos analisar a situação de forma um pouco mais isenta:
Ajudar crianças doentes, combater abusos das indústrias, lutar pelos seus direitos. O que todos esses cenários têm em comum? Apelam para o nosso lado emocional, comovem, inflamam os ânimos, levam a uma mobilização pessoal e coletiva e, em última análise, inútil.
Vou citar aqui alguns exemplos:
Em tempo:

Quem nunca recebeu recebeu, pelo menos uma vez, uma mensagem sobre uma menina com câncer que irá receber doações a cada email repassado por você? Ou um alerta contra um terrível composto químico introduzido secretamente pela indústria? Ou um pedido para aderir a um boicote contra os abusos das companhias telefônicas ou de combustíveis? Em outras palavras: as temíveis .

Antes de sairmos chamando todo mundo de “salsinha” e concluirmos, satisfeitos porém mortificados, que nem todos têm a chance de ser tão iluminados como nós aqui do blog (o que não deixa de ser uma verdade ululante! — brincadeirinha!), vamos analisar a situação de forma um pouco mais isenta:

  • Alguns anos atrás, o jornalista Fausto Wolff, em sua coluna do JB, reclamava das companhias telefônicas que forçavam a adoção do sistema ADSL quando os atuais cabos de cobre permitiriam acesso a velocidades muito mais altas e mais baratas, fato denunciado pelo engenheiro Reynaldo Pellegrini e até então escondido da população por fins lucrativos.
  • Em 2008, um abaixo assinado reuniu rapidamente mais de 2 milhões e meio de assinaturas contra o artista Guillermo Habacuc Vargas, que teria deixado um cão definhar até a morte durante uma exposição, a título de obra de arte.
  • Entre Julho e Setembro de 2009, milhares de pessoas usaram o Twitter como ferramenta para alertar sobre o sequestro de uma menina de três anos de idade, com detalhes inclusive sobre o número da placa do veículo do sequestrador.

Em comum entre esses três exemplos citados e inúmeros outros? Todos falsos.

  • Nunca existiu nenhum engenheiro Reynaldo Pellegrini. Pelo menos não relacionado a denúncias (igualmente inexistentes) sobre ADSL. A própria revista onde teria ocorrido a divulgação nega a existência do fato.
  • O cão supostamente torturado por Habacuc, gerando mais comoção do que a morte de crianças carentes ou a corrupção na , nunca morreu.
  • O alerta sobre o sequestro da garota americana é totalmente falso, assim como o número da placa do veículo. (O que não impede que, até o presente momento, ainda esteja sendo veiculado).

Ajudar crianças doentes, combater abusos das indústrias, lutar pelos seus direitos. O que todos esses cenários têm em comum? Apelam para o nosso lado emocional, comovem, inflamam os ânimos, levam a uma mobilização pessoal e coletiva e, em última análise, inútil. Porque inútil? Porque são sempre mensagens tão falsas quanto notas de três reais, e mais inúteis ainda, pois quando re-enviadas só gastam tempo, espalham conceitos errados e subvertem a própria idéia de mobilização.

Não vou nem comentar sobre o fato de um jornalista repassando uma informação que não resiste a cinco minutos de pesquisa no Google. O caso é que a grande maioria da população não é “entendida de computador”. E o perfil da maioria da internet corresponde hoje ao perfil da maioria da população, que usa apenas ferramentas básicas como email, msn e orkut. A maioria das pessoas acaba meio que “caindo de pára-quedas” na internet, sem um preparo prévio e sem saber das possibilidades e das peculiaridades do mundo online; não está acostumada ao caráter hipertexto da rede, onde todas as informações estão interligadas, uma puxa a outra, e explica, e complementa — mas só se você quiser e for atrás.

Se 10% do tempo e esforço gasto em multiplicar essas fossem investidos em esclarecer, divulgar e organizar protestos e reivindicações legítimas, talvez nossa situação não estivesse tão escrachada como a que somos obrigados a ver por aí.

Obrigados pela nossa própria apatia.

(Ou talvez a resposta esteja em entender que somos, mais que as formigas e as abelhas, um animal social. Para o qual estar vivo significa se comunicar, interagir. Talvez ter algo a dizer — ou de estar dizendo algo, mesmo sem ter o que dizer — seja mais importante do que o conteúdo da mensagem e sua veracidade em si. Aí estão as salas de chat, que não me deixam mentir.

Junte a tudo isso uma “confiança” na informação que chega já anônima, e nas pessoas que compartilham essa informação. Confiança baseada no hábito que trazemos de fora da internet, de construir nossos conhecimentos baseados no feedback da rede de contatos que nos cerca. Família, colegas de trabalho, amigos…

Mas, no mundo instantâneo, fluido e efêmero da internet, as pequenas redes de contato viram uma grande massa  — que se esconde no anonimato para espalhar qualquer tipo de informação falsa. Com a mesma rapidez e facilidade que você tem ao alcance das suas mãos para verificar se ela é mesmo falsa ou não).

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